PBL
Sabe quando você está estudando alguma teoria e pensa, “Mas onde eu vou usar isso na vida real?” Pois é, essa é uma das perguntas mais comuns que eu ouço, e é exatamente aí que entra uma metodologia de ensino que faz parte do processo de formação de estudantes, mas também é um modelo de aprendizagem que eu recomendo para professores e profissionais de TI, especialmente os que atuam nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), estou falando do Problem/Project Based Learning, ou PBL.
Se você não conhece, eu vou te explicar o que é isso e por que essa abordagem faz tanto sentido quando falamos de aprender tecnologia.
O que é Problem/Project Based Learning?
De forma bem direta, PBL é uma metodologia de aprender algo resolvendo problemas/projetos reais, e não decorando teorias sem nunca aplicá-las. É usada em escolas mas também pode ser utilizada por pessoas que já estão no mercado.
É uma inversão do modelo tradicional. No ensino tradicional, o caminho costuma ser assim: o professor explica a teoria → você faz exercícios → depois faz uma prova. Qual é o problema disso? Muitas vezes você não entende por que está aprendendo aquilo nem onde aquilo se aplica.
No PBL, a lógica muda. Você começa com um problema real, aberto e complexo. Não existe uma única resposta certa. Você precisa pesquisar, discutir com outras pessoas, testar hipóteses, errar, ajustar e tentar de novo. É imprescindível que se tenha uma base de conhecimentos para aplicar em cada uma das etapas.
Um detalhe importante, hoje em dia, raramente existe aquela figura do professor que “despeja conhecimento” e resolve tudo por você. No PBL, o papel do professor é muito mais o de mentor e facilitador, alguém que faz boas perguntas e te ajuda a pensar.
Como explica a Wikipedia, o PBL não foca em resolver problemas com soluções definidas, mas sim em desenvolver habilidades e atributos através da experiência de enfrentar problemas abertos.
Chuta aeee quantos problemas chegam a mim com tudo certinho para ser resolvido? É só rodar um comando e voila!! Tá feito!
Como o PBL funciona na prática no dia a dia de TI?
Deixa eu te dar um exemplo concreto, acho que faz mais sentido explicar dessa forma.
Imagine um curso de tecnologia no modelo tradicional. Você teria disciplinas separadas: redes, programação, sistemas operacionais, banco de dados… cada uma no seu quadrado. Só lá no final do semestre ou do curso, talvez, apareça um projeto para treinar seus conhecimentos.
No PBL, desde o início você pode receber um desafio como:
“Nossa aplicação está caindo toda vez que temos pico de acessos. Como garantir que o sistema aguente Black Friday?”
Pronto, agora você precisa:
- Entender como funciona a infraestrutura atual (sistemas operacionais, redes)
- Analisar métricas e identificar gargalos (observabilidade, monitoramento)
- Pesquisar estratégias de escalabilidade (arquitetura, cloud)
- Implementar auto-scaling e load balancing (DevOps, IaC)
- Criar alertas e dashboards (SRE, ferramentas de monitoramento)
- Calcular custos de infraestrutura (cloud economics)
- Testar a solução com testes de carga (engenharia de confiabilidade)
Percebe a diferença? Você está aprendendo tudo isso de forma integrada, com um objetivo claro. E mais, você está desenvolvendo habilidades que vão além do conteúdo técnico, está aprendendo a pensar como um profissional DevOps/SRE de verdade.
Por que PBL e STEM são uma combinação perfeita?
Agora vamos conectar alguns pontos. Como mencionei no post anterior sobre formação STEM, cursos STEM representam uma abordagem educacional que integra Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, com o objetivo de preparar profissionais para resolver problemas complexos do mundo real através da ampliação do seu repertório de conhecimentos. Mas como juntar esse conhecimento com uma metodologia eficaz? É exatamente aí que entra o PBL! A educação STEM anda junto com as metodologias que integram diferentes disciplinas, desenvolvem pensamento crítico, estimulam criatividade e inovação, e te preparam para problemas que ainda não existem. O PBL desenvolve tudo isso, além de ser o modelo de aprendizado recomendado para o futuro, de acordo com o Schools of the Future: Defining New Models of Education for the Fourth Industrial Revolution.
As vantagens do PBL para quem tem uma base STEM
Veja algumas vantagens práticas que você vai experimentar com essa abordagem:
1. Aprendizado centrado em você: você não é mais um receptor passivo. Você toma as rédeas do seu aprendizado, decide que caminhos seguir, que soluções testar. Isso desenvolve autonomia e responsabilidade.
2. Preparação para o mercado de trabalho/futuro: no mundo real, ninguém vai te dar um problema com gabarito no final do livro. Você vai enfrentar situações ambíguas, com múltiplas soluções possíveis. O PBL te prepara exatamente para isso.
3. Desenvolvimento de soft skills: trabalho em equipe, comunicação, negociação, gestão de tempo. Essas habilidades são tão importantes quanto o conhecimento técnico, e você desenvolve todas elas naturalmente no PBL.
4. Aprendizado mais profundo: quando você aprende resolvendo problemas reais, o conhecimento fica. Não é decoreba para a prova. É compreensão genuína que você vai carregar para a vida.
5. Motivação e engajamento: é muito mais interessante trabalhar em um problema real do que fazer exercícios repetitivos. Você vê sentido no que está aprendendo, e isso faz toda a diferença na sua motivação.
PBL na prática: o que esperar?
Se você estiver considerando utilizar a abordagem PBL para aprender algo, ou se você pensa em iniciar seus estudos numa instituição que adota essa metodologia, aqui vai o que você pode esperar encontrar como dinâmicas:
Trabalho em grupos pequenos: você vai trabalhar em equipes de 5 a 8 pessoas, geralmente. Cada um traz suas habilidades e perspectivas para resolver o problema.
Sessões de tutoria: haverá encontros regulares com um tutor (Professor/Tutor/TechLead) que vai te guiar, fazer perguntas provocativas, te ajudar a refletir sobre o processo.
Ciclos iterativos: você vai propor uma solução, testar, ver o que funcionou e o que não funcionou, ajustar, testar de novo. É um processo cíclico de aprendizado.
Apresentações e discussões: você vai precisar apresentar suas ideias, defender suas escolhas, receber feedback. Isso desenvolve habilidades de comunicação essenciais.
Autoavaliação e reflexão: parte importante do PBL é refletir sobre seu próprio aprendizado. O que você aprendeu? Como aprendeu? O que faria diferente?
As empresas de TI trabalham no modelo de times pequenos e específicos ou no modelo de squads do Spotify. Guarde essa informação aí.
Como aproveitar ao máximo o PBL?
Estar em um ambiente que usa PBL exige conhecer algumas dicas práticas:
1. Abrace a incerteza: não ter todas as respostas é normal. Faz parte do processo. Aprenda a se sentir confortável com o desconforto.
2. Seja proativo: não espere que alguém te diga o que fazer. Tome iniciativa, pesquise, experimente, proponha ideias.
3. Colabore de verdade: trabalho em equipe não é dividir tarefas e cada um fazer sua parte isoladamente. É construir junto, discutir, debater, aprender com os outros.
4. Documente seu processo: anote suas ideias, suas tentativas, seus erros, seus aprendizados. Isso vai te ajudar a refletir e também a apresentar seu trabalho.
5. Peça feedback constantemente: não espere a avaliação final. Busque feedback do tutor, dos colegas, de profissionais da área. Use isso para melhorar.
6. Conecte com o mundo real: sempre que possível, busque conexões com situações reais, converse com profissionais da área, visite empresas, entenda como os problemas são resolvidos na prática.
As empresas de TI trabalham, organizam e distribuem suas metas e objetivos por meio de OKRs, projetos, tarefas, quase nunca organizados, além de uma falta enorme de definições claras. Guarde mais essa informação aí.
PBL e o dia a dia de um profissional de TI, o paralelo perfeito
Vou te contar um segredo, se você trabalha com TI, talvez você já pratique PBL todos os dias, mesmo sem saber. Pense comigo. Como é o seu dia a dia? Seria parecido com um desses dois cenários?
Cenário 1: O bug em produção São 10h da manhã. Chega uma mensagem no Slack: “O sistema está fora do ar para alguns usuários”. Você tem todas as respostas? Não. Você sabe exatamente o que fazer? Também não.
O que você faz? Começa a investigar. Olha os logs, testa hipóteses, conversa com o time, pesquisa no Stack Overflow, tenta uma solução, monitora, ajusta. É um ciclo iterativo de resolução de problemas. Isso é PBL puro.
Cenário 2: Nova feature para implementar O Product Manager chega com um requisito: “Precisamos de um sistema de recomendação para os usuários”. Pronto, problema aberto. Não tem gabarito.
Você precisa:
- Entender o problema de negócio
- Pesquisar algoritmos de recomendação
- Avaliar trade-offs (performance vs precisão)
- Discutir com o time arquitetura
- Prototipar, testar, iterar
- Documentar e apresentar a solução
O que se faz em ambos os casos? Começar a investigar. Olhar os logs, testar hipóteses, conversar com outros times, pesquisar no Stack Overflow, tentar uma solução, monitorar, ajustar. É um ciclo iterativo de tentativas de resolução de problemas. Isso é PBL puro. Percebeu? É exatamente o processo do PBL. Problema real, múltiplas soluções possíveis, trabalho colaborativo, ciclos iterativos. Novamente: aprendizado baseado em problemas reais, não somente em teoria.
O aprendizado é contínuo e nunca acaba
Fazer parte de alguns times além do seu, interagir com diversos outros times, lidar com projetos, tarefas, OKRs pouco detalhados é a realidade da maioria das empresas de TI. Trabalhar com TI significa que você nunca para de buscar o conhecimento para alguma coisa nova. E sabe o que é interessante? A forma como você aprende no trabalho, é essencialmente PBL.
Você não aprende Docker só lendo um livro inteiro antes de usar. Você aprende criando um Dockerfile para resolver um problema específico, errando, ajustando, entendendo na prática. Você não aprende React fazendo 100 exercícios teóricos. Você aprende construindo uma interface real, enfrentando problemas de estado, performance, componentização. Você aprende enfrentando problemas de escalabilidade, manutenibilidade, testabilidade em projetos reais.
Consegue ver um padrão? Problema → Pesquisa → Tentativa → Erro → Ajuste → Aprendizado. É o ciclo do PBL para o mercado de TI, especialmente em ambientes ágeis e de inovação. O perfil PBL se adapta muito bem.
Conclusão
Você que deseja entrar no mercado de trabalho de TI, saiba que no dia a dia de TI, só aparece um tipo de problema a ser resolvido: problemas complexos, com poucos detalhes para começar, sem soluções definidas com impactos financeiros.
Se você quer um caminho mais tranquilo, onde alguém te diz exatamente o que estudar e como estudar, certamente na TI não é assim, e me atrevo a dizer, no atual momento, nem em muitas outras áreas é assim também.
Mas se você quer realmente se preparar para o mercado de trabalho, desenvolver habilidades que vão te diferenciar e aprender a aprender, então uma formação STEM combinada com a metodologia PBL é uma excelente escolha. É um caminho mais desafiador? Sim. Exige mais de você? Com toda certeza. Mas os resultados valem a pena, e você terá maiores chances de estar preparado para os desafios da vida profissional. Nesse sentido, o Problem Based Learning aplicado à educação STEM é uma das melhores ferramentas que temos hoje.
Vá em frente. Abrace os desafios. Você vai aprender muito mais do que imagina.
Abraços!
Vida longa e próspera a todos!!
Referências
- Problem-based learning - Wikipedia
- Transformando a aprendizagem com o Problem Based Learning (PBL): a metodologia utilizada pela CESAR School
- STEM - Infra as Code
- Discover the Spotify model
- Schools of the Future: Defining New Models of Education for the Fourth Industrial Revolution
- Code.org
- STEM
PS:
No Schools of the Future: Defining New Models of Education for the Fourth Industrial Revolution, você pode conhecer outras metodologias de ensino para o futuro.
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